Custos financeiros na construção Civil

Custos de financiamento implícitos na sua obra de construção Civil!

*Por Arnaldo Feitosa

É perfeitamente comum no mercado de construção civil que as construtoras, empreiteiras, empresas de arquitetura, engenharia, decoração etc. continuem as obras iniciadas sobre sua responsabilidade, mesmo não recebendo o pagamento nas condições e prazos acordados com o cliente.

Em muitos casos, estes desembolsos não são considerados quando da entrega/finalização da obra, principalmente quando está envolvido em ambos os lados grandes empresas (ou preferencialmente quando o cliente é uma grande empresa). Isso por que, afinal de contas, não queremos perder negócios com o cliente, e sim, perpetuar o nosso relacionamento com ele.

Porém, por mais que tenhamos total interesse em manter e continuar o relacionamento com o cliente, outros pontos também deverão ser levados em consideração na relação caixa X retorno da obra, tais como: A obra realizada para o cliente está trazendo retorno econômico para a empresa?

Os pagamentos financeiros realizados pelo cliente são suficientes para a construção da obra dentro do prazo planejado? Temos que utilizar recursos financeiros próprios para suprir atrasos nos pagamentos do cliente e, assim, cumprir com o cronograma proposto? Temos disponíveis estes recursos financeiros ou temos que buscá-lo no mercado financeiro via empréstimos, por exemplo?

Tendo como ponto central do artigo a relação entre caixa e retorno em uma obra de construção civil, buscaremos discutir em torno da seguinte indagação:

De que forma o cliente pode impactar no resultado econômico-financeiro da obra não pagando os seus compromissos financeiros nas condições e prazos acordados? A sua empresa tem realizado uma gestão de contratos eficiente?

Custo de financiamento[1]

O custo de capital é a remuneração mínima que os proprietários dos recursos (credores e acionistas) exigem para aplicar o seu dinheiro no empreendimento/obra.

A ideia que permeia o custo de capital é bastante simples: se como detentor de capital estou aplicando recursos financeiros em determinada obra, ela deve me proporcionar retorno pelo menos tão alto quanto outro investimento de mesmo risco. O custo de capital é dividido em: custo de capital de terceiros e custo de capital próprio.

Para calcular o custo de capital de terceiros (Debt) utilizado na obra, o procedimento mais usado pela indústria de construção civil é considerar o custo do empréstimo da obra como um percentual do CDI (Certificado de Depósito Interbancário[2]), normalmente, superior a 100% que é o custo de captação.

Por exemplo, considerando o CDI Setembro de 2015 em 14,13%, a obra poderia ter seu custo de empréstimo (antes do imposto de renda[3]) estimado como 150% do CDI, ou seja, de 21,19% ao ano.

Por outro lado, não é tão simples, fazer o cálculo do Custo do Capital Próprio (Equity). Existem diversas maneiras disponíveis para o acionista estimar o seu custo de capital, através de modelos quantitativos complexos como o CAPM – Capital Asset Price Model, ou Modelo de Precificação de Ativos de Capital, o Arbitrage Price Theory (APT), o modelo de três fatores de Fama e French, dentre outros.

A maioria dos executivos de Finanças do Mercado Norte Americano, conforme Harvey (2001) utilizam o CAPM. No entanto, estudos de GAICHI e REGO (2013) indicam que a aplicação do CAPM tem sido inconclusiva em mercados emergentes como no Brasil.

Outra forma basta pragmática, seria pegar um valor arbitrário informado pelo próprio investidor que tem como referência alguma taxa de mercado (poupança, taxa básica de juros, índice da bolsa de valores etc), sendo mais utilizado a taxa básica SELIC, adicionando-se a esta taxa um prêmio de risco arbitrado sobre a taxa Risk Free.

Devemos salientar que o Capital próprio em geral tem custo superior à taxa livre de risco, neste caso a taxa SELIC, porque na hipótese destas taxas serem iguais, pelo princípio da dominância em finanças, quando dois ativos possuírem a mesma rentabilidade, o investidor racional preferirá aquele que detém menor risco, neste caso a taxa SELIC que têm apenas o risco soberano e o investidor preferirá aplicar em títulos públicos. Outra premissa importante é que capital próprio sempre tem custo superior ao custo do capital de terceiros.

Isto acontece porque o Capital de terceiros tem o benefício da dedução fiscal e mesmo que o capital próprio não seja exigível, devemos enxergá-lo sob a ótica do investidor que só vai alocar dinheiro na empresa se a rentabilidade do negócio (TIR) for superior ao custo de financiamento bancário.

Afinal, se um investidor entende sua função como acionista, saberá responder à pergunta: Qual a rentabilidade ideal de seu Capital para que ele aceite o risco de mantê-lo investido em sua empresa?

Para calcular o Custo Médio Ponderado do Capital ou WACC – Weighted Average Capital Cost, é necessário fazer uma média ponderada simples do custo de capital de terceiros e a participação de capital próprio na obra. Vejamos um exemplo:

Suponhamos que a obra foi financiada com 60% de capital da própria empresa e 40% de recursos financeiros via empréstimos bancários.

O custo do empréstimo antes do imposto de renda é estimado atualmente como 150% do CDI (21,19%).

Para fins didáticos, o custo de capital próprio anual da empresa foi arbitrado em 25% e alíquota de imposto de renda de 30%.

Encontramos o Custo Médio Ponderado de Capital – CMPC da obra da seguinte forma:

CMPC = 0,60 x 25% + 0,40 x 21,19 x (1-0,30) → CMPC = 20,93%

A obra e o seu fluxo de caixa

O fluxo de caixa de uma obra busca evidenciar os movimentos ocorridos nas suas disponibilidades (principalmente, caixa, bancos e aplicações de liquidez imediata)[4].

Ele confronta as entradas e saídas de caixa do empreendimento, verificando, assim, se haverá sobras ou falta de caixa. Dessa forma, o fluxo de caixa da obra permite que o construtor decida se será necessário tomar ou aplicar recursos financeiros com antecedência.

É importante ressaltar que “quase sempre” os problemas de insolvência ou falta de liquidez é por causa de inadequada administração do fluxo de caixa. Outro ponto importante a que convêm destacarmos é que se obra tem lucro, apurado pela Contabilidade, não significa que ela terá dinheiro para pagar seus compromissos financeiros, e o contrário também é verdadeiro, isto é, ser a obra tem caixa suficiente e/ou em excesso, não significa que ela proporciona retorno para a empresa.

Isso porque, na Contabilidade, trabalha-se com o conceito de regime de competência, isto é, as receitas e despesas são contabilizadas quando o fato gerador ocorre, independente se houve ou não pagamento e recebimento (saída ou entrada de caixa). Já no fluxo de caixa prevalece o conceito de regime de caixa, considerando o registro do fato gerador quando este foi pago, liquidado ou recebido.

Assim, podemos afirmar que existe uma relação entre caixa e retorno, e muita das vezes, ao considerar a inexistência desta relação, o gerente do empreendimento acaba prejudicando o retorno de sua obra.

Isto é, ao não receber o pagamento de seu cliente e se encontrar sem caixa para continuar a obra, o gerente deverá buscar financiamento externo à obra (seja da própria empresa ou de terceiros) para que ela não pare (até por que vários materiais foram adquiridos, os funcionários foram contratados etc).

Porém, para uso deste recurso financeiro extra ele pagará uma taxa, em conseqüência, o retorno da obra será prejudicado, pois no seu orçamento não estava contemplado este custo.

Relação Caixa-Retorno em obra de construção civil

Para demonstrar o impacto que atrasos no pagamento, desembolsos planejados de forma equivocada, ou alguma alteração de escopo pode ocasionar no retorno da obra simularemos um exemplo hipotético.

Suponhamos que uma construtora foi contratada para realizar uma obra no valor total de R$ 29 milhões pelo período de 23 meses, sendo o cliente responsável por desembolsar o dinheiro mensalmente à medida da necessidade de caixa da obra[5] (coluna 2 da tabela 1) – prática bastante comum no mercado de construção civil.

Porém, o cliente não conseguir efetuar os pagamentos conforme cronograma de desembolso contratual entre as partes, e sim, em apenas 3 parcelas ao longo de todo o período (coluna 3 tabela 1).

Para não ter desperdício de material já comprado, funcionários alocados para outra obra ou mesmo dispensados, não cumprimento do prazo etc, a construtora continua fazendo a obra.

Isso, contudo, fez com que a obra ficasse com fluxos de caixa negativo ao longo de todo o período de construção (coluna 4 da tabela 1), sendo suprido este caixa por recursos financeiros externos à obra (da própria empresa ou de terceiros via empréstimos bancários, por exemplo).

Ao utilizar estes recursos financeiros que não estava previsto no fluxo de caixa da empresa, foi necessário que ela buscasse novas fontes de financiamento tendo em vista que ela não disponha desde caixa. Isso fez com que a obra incorresse num custo de financiamento, que muitas vezes não é computado no projeto, pagando juros pela utilização deste capital.

Tabela 1 – Fluxo de caixa e Custos de financiamento implícitos

 O caixa acumulado que foi necessário que a empresa buscasse para suprir a demanda de caixa da obra encontra-se informado na coluna 5 da tabela 1.

Considerando o custo total de capital da empresa de 20,90 % ao ano [6], consequentemente, sendo este também o custo de capital desta obra em análise, é possível calcularmos os juros pagos mensalmente pela empresa pela utilização deste recurso financeiro (coluna 6 da tabela 1).

Pela tabela 1 é possível verificarmos que a obra teve juros pagos no valor de R$ 1.831.434,89 que foi desembolsado inteiramente pela construtora.

Considerando que ela cobra de seu cliente uma taxa de administração de 20% sobre o valor total da obra (R$ 5,8 milhões) e que seu lucro não seja superior a 30% deste valor (R$ 1,740.000,00, é perceptível que um custo de financiamento de caixa da obra de R$ 1,831.434,89 supera totalmente a margem de lucro contábil e ao final das contas a construtora “trabalhou de graça”.

Isso nos possibilita concluir e demonstrar que uma boa administração do fluxo de caixa da obra, equilibrando as entradas com as saídas de caixa, é fator primordial para manutenção do retorno do projeto.

Assim, este custo de financiamento do caixa, que em determinadas situações pode ser implícito, surgido no decorrer da obra, não pode ser descartado pela construtora, pois o seu impacto pode ser considerável no retorno econômico da obra.

Dessa forma, orientam-se as contratadas para executar os empreendimentos civis:

a) Cobrar de suas contratantes que cumpra os desembolsos acordados;

b) Exigir o reconhecimento de mérito rapidamente de suas contratantes em qualquer alteração de escopo, para que os desembolsos comecem a serem efetuados sem comprometer o fluxo de caixa da obra;

c) Revisar, no final da obra, se os desembolsos acordados entre as partes foram suficientes para cobrir o avanço físico do projeto, e caso seja identificado um custo de financiamento, negociar a distribuição do ônus com a contratante.

Para mais informações sobre gestão, economia e finanças por favor, visite nosso portal Peritia Econômica;

Fontes:

GAICHI, Daniel e REGO, Ricardo: CÁLCULO DO CUSTO DO CAPITAL PRÓPRIO NO BRASIL: ANÁLISE CRÍTICA DO LAUDO DE AVALIAÇÃO DA VALE FERTILIZANTES. UFF. Niterói, 2013;

[1] Utilizaremos como sinônimo custo de capital e custo de financiamento da obra.

[2] CDI é considerado a taxa média de empréstimos de dinheiro entre as instituições financeiras, ela é a referência para a transferência de recursos entre bancos.

[3] É permitido para a empresa deduzir dos juros pagos o imposto de renda quando utiliza capital de terceiros.

[4] Trataremos como sinônimo caixa e disponibilidades.

[5] O ganho da construtora seria uma taxa de administração de x% sobre o valor total da obra.

[6] O custo de capital mensal equivalente é de 1,5963%.

1 comentário


  1. Esse artigo ajudou a esclarecer muitas dúvias, é sempre bom encontrar pessoas dispostas à ajudar, parabéns pela iniciativa, ótimo trabalho.

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